
RUA: DO SEMINARIO S/N -(PRAÇA DOS OURIVES)-BAIRRO: FRANCISCANOS/JUAZEIRO DO NORTE-CE. IMAIL:OFICINABERIMBAU@GMAIL.COM OU PEKENOFURACAO@GMAIL.COM.
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| Capoeira é uma arte marcial com quase 5 séculos, desenvolvida no Brasil, por escravos oriundos de África, inicialmente como técnica de defesa. | | |||||||
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| A Capoeira é caracterizada por uma roda, formada por praticantes da arte capoeirista. Na roda um Mestre encarrega-se de tocar o berimbau, acompanhado por outros capoeiristas com instrumentos específicos da Capoeira como o pandeiro ou o atabaque. Os restantes membros que irão praticar o seu "jogo" de Capoeira, alternadamente, e dois a dois, num misto de dança, pontapés, saltos, etc.
O Que é a Capoeira? Um Pouco de História "Capoeira é luta de dançarinos. É dança de gladiadores (...). A submissão da força ao ritmo. Da violência à melodia. A sublimação dos antagonismos (...). O capoeira é um artista e um atleta, um jogador e um poeta." Dias Gomes Origens da CapoeiraA capoeira, na sua mais completa definição e formação, nasceu no Brasil. Com início da colonização, os portugues viram no trabalho escravo um instrumento para o desenvolvimento desejado por eles. Tentaram, no começo, escravizar e explorar o trabalho dos indígenas que aqui já viviam, mas as características físicas e culturais, somadas à resistência ao trabalho cativo por parte dos índios, os levam à morte rápida no cativeiro. A saída encontrada pelos colonizadores foi a escravidão negra, o tráfico de homens negros, trazidos do continente africano para o início de grande saga que marcou a sociedade brasileira: o período das torturas, da lei da chibata e da morte como reguladora das relações de trabalho. Um povo passou a viver na escravidão. Assim, já no início do século XVI, milhares de africanos foram desembarcados em terras brasileiras. Com eles, a história do país ganhou alterações. Inicialmente foram mão-de-obra nos canaviais e depois na mineração e em outras atividades produtivas. Foram trazidos contra sua vontade mas, naturalmente, trouxeram sua cultura, sua vivência e, com ela, a semente da liberdade que nunca morreu, mesmo na terra marcada pelos horrores da escravidão. É claro que essa cultura não estava nas escolas, nos livros nem nos museus. Mas era guardada no corpo, na mente, na vivência histórica do povo e transmitida há séculos através das gerações. Manifestava-se por intermédio da música, da dança, da comida, da filosofia e da religião. Basta recorrer à história do Brasil e encontraremos, a partir do século XVI, a cultura negra presente com o seu vasto conjunto de expressões. a) A ResistênciaNenhum povo vive eternamente sob o jogo da escravidão sem se revoltar. Com o negro no Brasil não foi diferente. Suas primeiras reações contra o cativeiro foram as fugas e as revoltas individuais e desorganizadas. Com o tempo, sentiu a necessidade de organizar sua resistência contra o opressor e passou a planejar as fugas e a pensar as formas de luta que travaria para se libertar. Também entendeu que precisava de refugios seguros, longe ds fazendas, da polícia e capangas do branco escravocrata. b) O Corpo Como ArmaPara realizar as fugas, o negro entendeu que prescisava lutar. Não tinha acesso a armas nem a qualquer outro recurso de guerra. Tinha apenas seu corpo e a vontade férrea de se ver em liberdade. Havia trazido da África lembrança de jogos e "dança das zebras", disputa festiva pelo amor de uma mulher. O próprio trabalho pesado dotava-lhe de força os músculos. Era preciso juntar e canalizar essa agilidade e força para a luta. A observação do comportamento de alguns animais brasileiros, particularmente o lagarto, a cobra e a onça, que atacam e defendem-se com destreza, ajudou na formação de um conjunto de movimentos que reuniu, então, a agilidade, a técnica e a força. Começaram a ser ensaiadas, inicialmente, as rasteiras, os pulos, as cabeçadas que iriam se desenvolver muito mais posteriormente. c) O NomeTornou-se necessário praticar, treinar e organizar os movimentos conhecidos em forma de luta. Para isso era necessário afastar-se das vistas dos feitores e guardas das fazendas, engenhos e minas. Mais uma vez o negro encontrou na natureza esse apoio. Entrava nos matos próximos às senzalas para se esconder e se preparar para a luta. Escolhia o mato com poucas árvores e de ramagem baixa. Essa vegetação leva o nome indígina de "capoeira". Esse termo passou a designar também a forma de lutar e de adestrar o corpo utilizada pelo negro para enfrentar seus opressores: a Capoeira. d) Arte - Dança - Música - Instrumentoele avisava da chegada do feitor Berimbau avisou ê ô a chegada do feitor... Mas, nem sempre era possível afastar-se para o mato para o ensaio da luta. Como o negro nunca deixou de praticar sua cultura, era comum, durante o período da escravidão, que se juntassem grupos de homens e mulheres para a cantoria, para a dança e mesmo para o culto aos orixás que também são saudados com ritmos e cantos. Como a Capoeira nasceu conjugado movimentos de danças, os encontros festivos ou místicos passaram também a ser mais uma oportunidade para a sua prática, já que esses encontros, principalmente os festivos, não eram reprimidos pelos donos de escravos. Assim a Capoeira ganhou o acompanhamento de cantos e ritmos que acabaram incorporados eram os disponíveis e já conhecidos pelo negro com destaque para o berimbau, o atabaque e o agogô. Mas foi o berimbau que ficou como uma espécie de símbolo da Capoeira já que o atabaque e o agogô integram a mitologia africana chegando mesmo, no caso do atabaque, a ser reverenciado como uma divindade. Desta forma, o berimbau, considerado o mestre dos mestres na Capoeira, ganhou importância nas lutas pelas suas possibilidades rítmicas e sonoras. Ganhou a função de comandar o jogo da capoeira com seus diferentes toques. Então, ao som dos instrumentos, palmas e cantorias, o negro recriava o seu universo cultural, cultivava o seu misticismo, alegrava-se ou lamentava-se e ainda se preparava para a luta. Primeiro registro sobre a capoeira. (Rugendas, 1824) Os feitores e capatazes passavam ao lado da festança e acreditam ser apenas um encontro para a "dança de Angola", que recebia esse nome em função da nação africana que mais cedeu negros para o tráfico de escravos. Afastando-se os feitores, intensificava-se o treinamento e o negro aparelhava-se cada vez mais para lutar. Mesmo que um feitor parasse e ficasse admirando a dança, dificilmente compreenderia que aqueles movimentos, executados com leveza dos felinos e com a plástica de um bailarino, pudesse trazer, no seu conjunto, poderosos golpes desequilibrantes, traumatizantes e rápidos como o bote da temível cascavel. e) As Fugas e os QuilombosMas a escrevidão continuava, o sangue do negro molhava as terras do Brasil ao mesmo tempo que sua força-de-trabalho movia a economia da então colônia portuguesa. Mas o negro não aceitava a condição de escravo nem os métodos desumanos da escravidão. Lutava, fugia, procurava ganhar forças junto a outros setores da comunidade, sensibilizava os chamados abolicionistas. Em suas fugas utilizava-se da Capoeira para o enfrentamento com os seus opositores. Embrenhava-se no mato, procurava um lugar onde a água fosse boa e a terra generosa e que fosse de difícil acesso aos chamados "capitães-do-mato", homens encarregados de recapturar os negros fugitivos. Essas localidades, que agregavam geralmente um significativo número de homens e mulheres negros, ficaram conhecidos como "quilombos" e seus moradores como "quilombolas". Capitão do Mato a procura de escravos foragidos. (Rugendas, 1824) O mais famoso e importante quilombo da história brasileira foi o quilombo de Palmares, que surgiu no início do século XVII onde hoje se situa o atual Estado de Alagoas. Esse quilombo ganhou importância pela sua organização interna, sua capacidade de resistência na guerra contra os escravocratas e pela eficiência de seus integrantes na produção de alimentos, roupas e posteriormente armas. Palmares resistiu a quase um século as agressões dos brancos. Todo quilombo possuía um líder, o Ganga Zumba que, por sua vez obedecia a um líder maior, com influencias em vários outros quilombos, chamado Zumbi, um misto de homem-guerreiro e de deus da guerra. O mais famoso foi justamente o lendário Zumbi dos Palmares, hoje símbolo da toda luta e resistência contra todas as formas de injustiça e de opressão. Zumbi dos Palmares comandou os guerreiros de Palmares nos últimos anos de existência daquele quilombo. Estrategista habilidoso, guerreiro imbatível, instituiu a Capoeira no adestramento de seus homens. Palmares foi destruído em 1694 pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. Zumbi conseguiu escapar vivo, mas tempos depois foi traído. Preso, foi decapitado e sua cabeça viajou quilômetros para assustar, intimidar os negros. Não adiantou. Os negros julgavam Zumbi imortal e a luta continuou... A Abolição e as DificuldadesEm 1888 ocorreu "Abolição da Escravatura". O mínino que se pode dizer é que a capoeira desempenhou importante papel para apressar o fim da escravidão instituída. Foi luta, foi resistência, foi instrumento que apavora os opressores. Reunidos em grupos, os negros formavam as famosas "maltas", conjunto de capoeiristas temíveis que investiam contra fazendas e engenhos para libertar outros negros. A capoeira convenceu, pelo medo, aqueles que insistiam em ver na escravidão vantagens econômicas, que o melhor seria a abolição. Mas os problemas dos negros não terminam com a assinatura da Lei Áurea. A falta de trabalho, o difícil acesso à educação e mesmo a exploração dos que conseguiam alguma forma de emprego continuam existindo e marcam nossa história até os dias de hoje. Os capoeiristas, após a abolição, encontraram mais uma vez na capoeira meio de sustento e instrumento de educação de seus filhos e apadrinhados. Faziam exibições públicas, participavam de apostas e desafios nos quais sempre se podia ganhar algum dinheiro. Continuou também como uma arma de defesa de uma camada social explorada e discriminada. Por outro lado, foi impossível barrar o surgimento de grupos que colocavam a capoeira a serviço de grã-finos e de políticos inescrupulosos que sabiam muito bem usar o povo contra o próprio povo. As Maltas menos esclarecidas eram utilizadas para desmanchar comícios, perseguir adversários políticos e desmanchar reuniões públicas. Consta até mesmo que, aproveitando-se da ilusão de que a princesa Isabel era protetora dos negros, os monarquistas criaram grupos de capoeiristas que atacavam os republicanos. A ProibiçãoPerseguida a ferro e fogo durante a escravidão, a capoeira continuou sendo alvo dos poderosos mesmo após a abolição. Agora era com leis que tentavam dar-lhe um fim. O código penal de 1890, criado e imposto durante o governo de Deodoro da Fonseca, proibiu a prática da capoeira em todo o território nacional. O código foi reforçado com decretos que especificavam penas pesadas contra capoeiristas. A perseguição oficial somava-se o ódio de alguns chefes, chefetes e vassalos da polícia que tentaram, então, exterminar por completo a capoeira. O motivo só pode ser aquilo que ela traz na sua essência: A Liberdade. E foi em nome da liberdade, agora não somente para o negro mas para a capoeira como um todo, que a luta continuou. E mesmo sob o ferro da repressão, grandes nomes de capoeiristas célebres passaram para a história como Nascimento Grande, Manduca da Praia, Natividade, Pedro Cobra e Besouro Magangá, entre outros. Mas é o nome desse último, Besouro nasceu na Bahia e ganhou esse nome devido à lenda que o cerca, atribuindo-lhe a capacidade de se transformar em inseto e fugir voando quando cercado por muitos homens armados. Sem usar armas, o famoso capoeira, bateu-se a vida toda contra a injustiça. Defendeu trabalhadores contra patrões desonestos, investiu inúmeras vezes contra a polícia para defender inocentes. Perseguido, nunca deixou-se prender. Nem as balas conseguiram acabar com ele. Foi vítima de uma arma mais poderosa: A Traição. Seu nome é glória na capoeira e símbolo de todo aquele que combate a injustiça e a desigualdade. Mesmo com toda perseguição, a Capoeira não foi extinta. Nos terreiros, nos quintais, no mato, ela continuou sendo transmitida de pai para filho, de amigo para amigo, de camarada a camarada. Continuou inclusive seu aperfeiçoamento, sua capacidade de dotar o corpo de condições perfeitas para todo o tipo de enfrentamentos. Sobreviveu aos diversos períodos ditatoriais pelos quais passou a República no Brasil. Em 1932, no Governode Getúlio Vargas, o país enfrenta mais uma de suas inúmeras crises. Getúlio Vargas, político esperto, trata de agradar o povo com medo de sua possível revolta organizada. Sabia que a Capoeira estava latente no seio do povo e mandou que a liberassem. Impôs, porém, a condição de que ela fosse praticada apenas como folquedo, como "folclore", e que perdesse, assim, sua condição de cultura popular, de elemento utilizado pelo povo. Da Angola Surge a RegionalFoi após a liberação que a história de Capoeira sofre uma profunda divisão. Continuou sendo praticada nas suas oringens, ainda com o nome de Capoeira de Angola mas perdia terrenos para outras formas e costumes que visavam atender a interesses econômicos, como o turismo, e interresses políticos para agradar autoridade plantão. Um nome que lutou a vida toda para preservação da Capoeira, como cultura popular, como herança histórica foi Mestre Pastinha - Vicente Ferreira Pastinha, chamado Mestre dos Mestres na Capoeira. Para Pastinha, a Capoeira era muito mais que luta, que esporte, era filosifia de vida. Mestre Pastinha A grande marca da Capoeira de Angola é o seu apego à intuição, à capacidade do corpo de responder as necessidades, cultiva mais que a força, o reflexo e a malícia. Caracteriza-se muito mais pela defesa do que pelo ataque e perspicácia em perceber o melhor momento para os golpes fatais. Essas características dotam-lhe de grande beleza plástica e nas rodas, os movimentos parecem ocorrer em câmera lenta. Isso deu ao Mestre Pastinha a condição de ser chamado de "O Poeta da Capoeira". Outro nome a respeito e importância dentro da Capoeira foi o Mestre Bimba - Manoel dos Reis Machado, baiano, criador da Capoeira Regional. Bimba aprendeu capoeira com um negro africano. Seu primeiro contato foi com a Capoeira de Angola. Tendo sido um excelente aluno, tornou-se rapidamente um exímio capoeirista. Preocupou-se com o aperfeiçoamento técnico da capoeira e foi o primeiro a tentar sistematizar uma linha para o aprendizado da luta. Passou a estudar os movimentos do corpo na capoeira, seu equilíbrio e a velocidade que precisavam atingir. Tomou contato com outras lutas, observou novamente as danças brasileiras. Juntou tudo isso e formou um mátodo de ensino no qual, antes de conhecer a capoeira propriamente, o aluno passa por uma série de exercícios físicos que lhe darão condições de jogo, e luta. Bimba foi absorvido, em grande parte, pelas idéias de transformar a capoeira em puro Esporte Nacional, sem associá-la a sua Essência História mas, nem por isso, deixou de prestar um grande serviço à Capoeira. Sua preocupação maior foi a de permitir que qualquer um, branco, negro, forte ou fraco, tivesse acesso ao aprendizado da Capoeira. Mestre Bimba Pensando assim, em 1937 Bimba fundou sua famosa academia agora com todo um método de ensino. Não havia mais o improviso, nem o peso da intuição e da malícia. Com Bimba a Capoeira precisava ser treinada exaustivamente e o condicionamento físico passou a ser mais importante que a malícia e o reflexo. Com a incorporação de elementos de outras lutas, os golpes de ataque passaram a ter mais presença e importância do que os de defesa, a força ganhou mais destaque que a manha e a astúcia. Muitos dizem que a Capoeira Regional empobreceu a Capoeira, mas talvez esta não tivesse sobrevivido às perseguições se não fossem as inovações concluídas por Mestre Bimba. E nunca poderá ser negado que a Regional é uma evolução da Capoeira de Angola. E a Capoeira está viva. Na Academia de Bimba (Trecho do Livro de Mestre Nestor Capoeira)Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba (1900-1974), foi um capoeirista excepcional, um criativo tocador de berimbau e cantor de Mão cheia. Era homem de pesonalidade forte e marcante. Abandonou as rodas de Capoeira de Angola de sua época e abriu sua academia (por sinal a primeira), por volta de 1930 e passou a ensinar a sua modalidade de Capoeira, que foi chamada de "Regional". Na academia de Bimba, perto da de Pastinha, no Pelorinho, o iniciante jogava sempre no toque de berimbau "São Bento Grande" (da Regional). As aulas não tinham ginástica inicial; o aluno chegava, fazia rapidamente a "sequencia completa" e a "cintura desprezada" (ver o pequeno manual do jogador de Capoeira) e em seguida começava o jogo (não havia também trino estruturado de golpes), no ritmo de "São Bento Grande" (da Regional) tocado no incrível berimbau do mestre. Berimbau puro, sem pandeiro nem atabaque. Os visitantes chegavam para assistir à aula e, se olhassem muito pro velho enquanto ele tocava a beriba, ele virava parcialmente as costas após um olhar atravessado lá do alto de seus 1,80 m, a fim de esconder do intruso suas intimidades e mumunhas com o berimbau. O iniciante era logo batizado e algum tempo depois, um ano geralmente, ele se formava. Nestas solenidades é que tinha uma roda, e o pandeiro e um coro de muitas "iaôs" (uma das mulheres de Bimba era do Candomblé) dava seu recado junto com o berimbau. Os "formados" com um ou dois anos de Capoeira, muitas vezes, pensavam que já eram experientes, na verdade, estavam recém-alfabetizados, tanto assim que o mestre dava mais um curso, o de especialização. O Mestre Bimba ministrava um curso de especialização para os alunos formados por ele. Este era secreto, só podiam participar das aulas os alunos formados e matriculados para o mesmo. Tinha duração de três meses, dois na academia e um nas chapadas do Rio Vermelho quando neste último aconteciam as "emboscadas" armadas pelo mestre para seus alunos. Bimba ensinava, neste curso, as defesas contra ataque com navalha, faca e facão. Bimba advertia: "O bom capoeirista não necessita usar ferro, porém é bom saber como usá-lo". Mas o que nos interessa, objetivamente, é o que o iniciante só jogava no ritmo de "São Bento Grande" (da Regional). Agora, quando aparecia na academia um antigo "formado", o mestre o convidava a fazer um jogo com algum outro formado, e para esse jogo ele tocava o toque de "iúna" (da Regional). "Mestre Bimba, mestre dos mestres, Rei da Capoeira". O jogo de formados ao toque de iúna tinha características bem diversas do jogo ao som do "São Bento Grande". Apesar uma coisa, jogar ao som de "iúna" era outra. Isso sem falar de outros toques inventados pelo mestre, "Amazonas", "Idalina", "Banguela", etc...(todas da regional), que ele dizia que só tocava para alunos muito adiantados - eu nunca soube de nenhum. O mestre para desenvolver jogo rápido e objetivo e só bem mais tarde entrar nos toques mais mandingueiros. Bimba achava que se o iniciante jogasse nos toques mais lentos e maliciosos, ele ficava "viciado", isto é, por causa do molho, do tempero do ritmo, o jogador começaria a adquirir características da capoeira de Angola e Bimba queria impor seu estilo, chegando por isso a proibir que seus alunos frequentassem outras academias ou rodas. Bimba podia ser também pessoa muito desconfiada, autoritária e de difícil diálogo. O mestre pegava seu berimbau e tocava o "São Bento Grande", onde o jogador tinha que ser rápido, alto e violento, depois tocava a "iúna", toque em que era permitido o jogo entre formados. Bimba tocava também a "banguela" quando sentia que dois formados estavam se estranhando. Como neste toque o jogo tem que ser bem lento, quase que a dança pura da capoeira, os ânimos eram alcamados. Os dois jogadores executam a "reverência" ao pé do berimbau: apoiados nas mãos, levantam o tronco e as pernas enquanto a cabeça quase toca o chão; lentamente, num domínio total do corpo, voltam à posição inicial e se encaram: o jogo começou. Percebem que à sua frente não está mais o amigo, ou companheiro, de treinos, mas sim uma charada que pode propor enigmas imprevisíveis e perigosos, no diálogo que vai se seguir. Diálogo não de palavras, mas de movimentos... movimentos de estudo, de ataque, de defesa... movimentos de enganar... perguntas e respostas na misteriosa linguagem da Capoeira. Nos Dias AtuaisHoje, não sem luta nem sem esforços, a capoeira ganhou mais espaço e respeito. Sua força e importância são de tamanha grandeza que, mesmo diante de tantas perseguições, continua existindo e se multiplicando. São inúmeras as academias existentes no país e, em muitas, a preocupação com a preservação de sua integridade histórica é constante. Algumas, ao lado da regional, ensina-se também a capoeira de angola. Em toda academia que merece ser chamada de academia de capoeira são ensinados os cânticos, as músicas e letras e o domínio de, pelo menos, um dos instrumentos da capoeira. Um forte movimento social, juntamante com pedagogos, psicólogos e professores, vem desenvolvendo um trabalho sério no sentido de provar às autoridades que o ensino da capoeira é uma prática das mais adequadas para os estudantes brasileiros. O movimento visa à adoção da capoeira nas salas de aulas de educação física, nas escolas brasileiras. Muitas escolas já adotaram no Rio de Janeiro, na Bahia e em São Paulo. O argumento incontestável para essa adoção é o que a capoeira proporciona em termos de equilíbrio, concentração, aumento dos reflexos e de toda a coordenação motora. Além disso, o contato com a capoeira é um mergulho na história do país. Um incentivo para uma visão de mundo mais solidário e mais humana, no conturbado contexto de nossa sociedade atual. IlustraçõesNesta ilustração, de J. Wasth Rodrigues, inserida em O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis de Luís Edmundo, vemos um mestiço capoeira, numa atitude típica, agressiva, e preliminar, quando enfrentava um êmulo: ostentando entre a dentuça a choupa, e desvencilhando-se do manto de saragoça e do chapéu. Neste desenho de autoria de Calixto Cordeiro, extraído da revista "Cosmos", vemos um momento culminante da capoeiragem: dois mestiços engalfinhados numa luta titânica: enquanto um, empunhando a barbeira (navalha), estava na iminência de desfechar um rabo-de-galo (navalhada em sinuosa), o outro, desarmado, desferiu uma lamparina (bofetada na orelha), que desorientou, aturdiu, derrotou o adversário. | ||||||||
Origem Histórica
A Capoeira Angola é um dos traço da manifestação da Africa Bantu no Brasil. Ela conserva sua essência no N'golo, ritual de passagem a vida adulta, onde as jovens são disputadas entre os jovens gurreiros das tripos e quem melhor se sobresair cabe o direito de escolher sua esposa dentre as jovens sem o pagamento do dote matrimonial.
A palavra Capoeira é de origem Tupi Guarani (indígena) significa um tipo de preparo do solo para o replantio (mato cortado rente ao solo) onde os negros ali se encontravam para prática do N'golo devido a obcessão do regimento escravista desenvolvia a alma física como instrumento de libertação.
Caracterização da Capoeira Angola
O Capoeirista Angoleiro busca compor seus movimentos com os movimentos do seu adversário, visando tornar o jogo coesco, como ume unidade. O seu senso estético lhe direciona à obtenção de uma sintonia eurrítmica usando movimentos expressivos, variados e ao mesmo tempo funcionais. A movimentação dos jogadores, visivelmente inspiradas em movimentos de animais silvestres, oferece uma grande liberdade e variedade de recursos aplicáveis às diversas situações do jogo que se desenvolve como uma trama, com diferentes passagens. O Capoeirista demonstra sua superioridade no espaço da roda, levando o adversário à confusão com perigo e a complexidade dos seus movimentos.
Naturalmente afloram dos jogadores inúmeras faces de temperamento humano: o medo, a alegria, a raiva, o orgulho, a compaixão, a indiferença e outros sentimentos que tormentam a intriga, exigindo o controle psicológico dos adversários num jogo de estratégia, em que as peças a serem movimentadas são as partes do própio corpo. Os capoeristas devem harmonizar o clima do jogo com o momento da roda, ou seja, jogar de acordo com o toque e o retorno que está sendo tocado pela orquestra, com o sentimento dos versos que estão sendo entoados pelo puxador e pelo côro.
Sagacidade, autoconfiança, lealdade, humildade, elegância são alguns dos fatores subjetivos que qualificam o Capoeirista Angoleiro, herdadas dos antigos praticantes do N'golo. O ser capoerista exige perfeito domínio da cultura, das tradições e do jogo, o toque dos intrumentos e o cantos das músicas.
Há uma grande controvérsia em torno da Capoeira Angola, o que faz com que este seja um dos mais difíceis, senão o mais difícil tema para se discutir na capoeira. Muitos capoeiristas ainda acreditam que a Angola é simplesmente uma capoeira jogada mais lentamente, menos agressiva e com golpes mais baixos, com maior utilização do apoio das mãos no chão. Outros explicam que ela contém o que há de essencial da filosofia da capoeira.
Há ainda aqueles que, mais radicais, chegam a afirmar que a Capoeira Angola foi completamente superada na história dessa arte-luta pelas técnicas mais modernas, que seriam mais eficientes e adequadas aos tempos atuais, dizendo que é mero saudosismo querer recuperar as tradições da Angola.
Para que se possa compreender a questão, algumas perguntas devem ser respondidas: A Angola é um "estilo" de capoeira, da mesma forma que há vários estilos de caratê, com técnicas bastante distintas entre si? Todo capoeirista deve optar entre ser um "angoleiro" ou um praticante da Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba por volta de 1930? Seria possível jogar a Capoeira Angola de maneira idêntica àquela jogada pelos velhos mestres, que tiveram o seu auge no começo deste século? E, ainda: é possível, nos dias de hoje, traçar uma rigorosa separação entre as principais escolas da capoeira, Angola e Regional?
De uma maneira geral, a Angola é vista como a capoeira antiga, anterior à criação da Capoeira Regional. Dessa forma, a distinção Angola/Regional é muitas vezes entendida como uma separação nestes termos: capoeira "antiga"/capoeira "moderna".
No entanto, a questão não é tão simples assim, uma vez que não houve simplesmente uma superação da Angola pela Regional. Além disso, defender hoje em dia a prática da Capoeira Angola não é apenas querer voltar ao passado, mas buscar na capoeira uma visão de mundo que questionou, desde o princípio, o conceito de eficiência e diversos padrões da cultura urbano-ocidental. Quando a Regional surgiu, já existia uma tradição consolidada na capoeira, principalmente nas rodas de rua do Rio de Janeiro e da Bahia.
Depoimentos obtidos junto aos velhos mestres da capoeira da Bahia lembram nomes importantíssimos na história da luta, como Traíra, Cobrinha Verde, Onça Preta, Pivô, Nagé, Samuel Preto, Daniel Noronha, Geraldo Chapeleiro, Totonho de Maré, Juvenal, Canário Pardo, Aberrê, Livino, Antônio Diabo, Bilusca, Cabelo Bom e outros.
São inúmeras as cantigas que lembram os nomes e as proezas destes capoeiristas, mantendo-os vivos na memória coletiva da capoeira. Um capoeirista de grande destaque entre os que defendiam a escola tradicional foi Mestre Waldemar da Liberdade, falecido em 1990.
Em 1940, Mestre Waldemar já conduzia a roda de capoeira que viria a ser o mais importante ponto de encontro dos capoeiristas de Salvador, aos domingos, na Liberdade. Infelizmente, na sua velhice Mestre Waldemar não teve o reconhecimento que merecia, e não foram muitos os capoeiristas mais jovens que tiveram a honra de conhecê-lo e ouvi-lo contar suas histórias. Morreu na pobreza, como outros capoeiristas célebres, como Mestre Pastinha.
Alguns dos frequentadores das famosas rodas de capoeira tradicional de Salvador ainda dão sua contribuição ao desenvolvimento desta arte-luta, ministrando cursos, palestras e, em alguns casos, apesar da avançada idade, ensinando capoeira regularmente em instituições, principalmente em Salvador, e alguns no exterior.
Conforme foi salientado anteriormente, com o aparecimento de Mestre Bimba, iniciou-se a divisão do universo da capoeira em duas partes, em que uns se voltaram para a preservação das tradições e outros procuraram desenvolver uma capoeira mais rápida e direcionada para o combate.
Como nos informaram os velhos mestres da capoeira baiana, a expressão Capoeira Angola ou Capoeira de Angola somente surgiu após a criação da Regional, com o objetivo de se estabelecer uma designação diferente entre esta e a capoeira tradicional, já amplamente difundida. Até então não se fazia necessária a diferenciação, e o jogo se chamava simplesmente capoeira.
Sabemos que o trabalho desenvolvido por Mestre Bimba mudou os rumos da capoeira, no entanto, muitos foram os capoeiristas que se preocuparam em mostrar que a Angola não precisaria sofrer modificações técnicas, pois já continha elementos para uma eficaz defesa pessoal. Após o surgimento da Regional, portanto, iniciou-se uma polarização na capoeira baiana, opondo angoleiros e discípulos de Mestre Bimba. A cisão ficou mais intensa a partir da fundação, em 1941, do Centro Esportivo de Capoeira Angola em Salvador, sob a liderança daquele que é reconhecido como o mais importante representante desta escola, o Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889-1981).
O escritor Jorge Amado descreveu este capoeirista como "um mulato pequeno, de assombrosa agilidade, de resistência incomum. (...) Os adversários sucedem-se, um jovem, outro jovem, mais outro jovem, discípulos ou colegas de Pastinha, e ele os vence a todos e jamais se cansa, jamais perde o fôlego" (Jorge Amado, Bahia de Todos os Santos, 1966:209).
Talvez pelo fato de a Capoeira Regional ter se expandido amplamente pelo Brasil, principalmente como uma modalidade de luta, passou-se a difundir a idéia de que a Angola não dispunha de recursos para o enfrentamento, afirmando-se ainda que as antigas rodas de capoeira, anteriores a Mestre Bimba, não apresentavam situações reais de combate. Porém, os velhos mestres fazem questão de afirmar que estes ocorriam de uma forma diferente da atual, em que os lutadores se valiam mais da agilidade e da malícia - ou da "mandinga", como se diz na capoeira - do que da força propriamente dita.
Mestre Pastinha, em seu livro Capoeira Angola, afirma que "sem dúvida, a Capoeira Angola se assemelha a uma graciosa dança onde a 'ginga' maliciosa mostra a extraordinária flexibilidade dos capoeiristas.
Mas, Capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta" (Pastinha,1964:28). Sendo uma prática comum no cotidiano dos anos 30, a capoeira não exigia de seus praticantes nenhuma indumentária especial. O praticante entrava no jogo calçado e com a roupa do dia-a-dia. Nas rodas mais tradicionais, aos domingos, alguns dos capoeiristas mais destacados faziam questão de se apresentar trajando refinados ternos de linho branco, como era comum até meados deste século.
Além disso, é importante observar que tradicionalmente o ensino da antiga Capoeira Angola ocorria de maneira vivencial, isto é, de forma espontânea, sem qualquer preocupação metodológica. Os mais novos aprendiam com os capoeiristas mais experimentados diretamente, com a participação na roda.
Embora já em 1932 tenha sido fundada por Mestre Bimba a primeira academia de capoeira, o aprendizado informal desta arte-luta nas ruas das cidades brasileiras predominou até meados da década de 50. Atualmente, a maior parte dos capoeiristas refere-se à Angola como uma das formas de se jogar a capoeira, não propriamente como um estilo metodizado de capoeira.
Para os não iniciados nesta luta, é importante lembrar que a velocidade e outras características do jogo da capoeira estão diretamente relacionados com o tipo de "toque" executado pelo berimbau. Entre vários outros, existe aquele denominado toque de Angola, que tem a característica de ser lento e compassado. Dessa forma, "jogar Angola" consiste, na maioria dos casos, em jogar capoeira ao som do toque de Angola.
Este cenário, no entanto, vem mudando, com a enorme proliferação de escolas de capoeira Angola, que realizam um sério trabalho de recuperação dos fundamentos dessa modalidade. Dessa forma, a maior parte das academias e associações de capoeira do Brasil, ao realizarem suas rodas, têm o hábito de dedicar algum tempo ao jogo de Angola, que nem sempre corresponde àquilo que os antigos capoeiristas denominavam Capoeira Angola.
Atualmente, o jogo de Angola caracteriza-se por uma grande utilização das mãos como apoio no chão, e pela execução de golpes de pouca eficiência combativa, mais baixos e mais lentos, realizados com um maior efeito estético pela exploração do equilíbrio e da flexibilidade do capoeirista.
De fato, seria tarefa muito difícil reproduzir detalhadamente as movimentações e os rituais da antiga capoeira, mesmo porque ela, como qualquer instituição cultural, tem sofrido modificações ao longo de sua história. No entanto, estamos vivendo, há alguns anos, uma intensa preocupação de recuperação do saber ancestral da capoeira, através do contato com os velhos mestres.
Este fato demonstra uma saudável preocupação da comunidade da capoeira com a preservação de suas raízes históricas. Afinal, se recordarmos que a capoeira, como arte-luta que é, engloba um universo muito mais amplo que simplesmente as técnicas de luta, veremos a quantidade de informações que podem ser obtidas junto aos antigos capoeiristas, que vivenciaram inúmeras situações interessantes ao longo de muitos anos de prática e ensino da arte-luta.
Acreditamos que algumas das mais relevantes características da Angola a serem recuperadas para os dias de hoje são: a continuidade de jogo, em que os capoeiristas procuram explorar ao máximo a movimentação evitando interrupções na dinâmica do jogo; a importância das esquivas, fundamentais na Angola, em que o capoeirista evita ao máximo o bloqueio dos movimentos do adversário, procurando trabalhar dentro dos golpes, aproveitando-se dos desequilíbrios e falhas na guarda do outro; a capacidade de improvisação, típica dos angoleiros, que sabiam que os golpes e outras técnicas treinadas no dia-a-dia são um ponto de partida para a luta, mas precisam sempre ser moldadas rápida e criativamente à situação do momento; a valorização do ritual, que contém um enorme universo de informações sobre o passado de nossa arte-luta e que consiste em um grande patrimônio cultural.
A antiga capoeira marcava-se por um grande respeito aos rituais tradicionais, diferentemente do que ocorre nos dias de hoje. Atualmente, são raras as academias que adotam a denominação de Angola ou Regional para a capoeira que é ali praticada. E, entre as que se identificam como Capoeira Regional, poucas demonstram efetivamente relação direta com o trabalho desenvolvido por Mestre Bimba.
Na verdade, os mestres e professores de capoeira afirmam jogar e ensinar uma forma mista, que concilia elementos da Angola tradicional com as inovações introduzidas por Mestre Bimba. De fato, como afirmamos anteriormente, delimitar a separação entre essas duas escolas da capoeira é algo muito difícil hoje em dia, e há muitos anos sabe-se que a tendência é que a capoeira incorpore as características dessas duas escolas. No entanto, é fundamental que os capoeiristas conheçam a sua história, para que possam desenvolver sua luta de maneira consciente.
A Capoeira Angola e a Capoeira Regional estão fortemente impregnadas de conteúdo histórico, e não se excluem. Completam-se e fazem parte de um mesmo universo cultural.
Fonte: www.cdof.com.br
Capoeira é uma palavra de origem tupi que significa a vegetação que nasce após a derrubada de uma floresta. No Brasil-Colônia, este nome foi também dado ao "Jogo de Angola" que aparecia nas fazendas e cidades, desde que aqui foram trazidos escravizados os primeiros grupos de africanos de origem banto.
A Capoeira praticada nas senzalas, ruas e quilombos foi vista como uma ameaça pelos governantes, que assim estabeleceram, em 1821, medidas de repressão à capoeiragem, incluindo castigos físicos e prisão.
As medidas policiais contra a Capoeira só deixaram de vigorar a partir da década de 1930, mas isto não significou que fosse plenamente aceita e que seus praticantes tivessem a simpatia da sociedade brasileira.
Carybé, Capoeira, 1981
O "Jogo de Angola" não foi aceito como uma forma de expressão corporal de indivíduos e grupos, em sua maioria africanos e afro-descendentes, organizados, pensantes e vigorosos. Foi transformado em folclore, com diminuição de seu significado grupal para os participantes, e depois em esporte ou arte marcial. Mas a forma não-esportiva da Capoeira também permaneceu, ligada a grupos de Capoeira Angola.
Assim, dois ramos da Capoeira surgiram na década de 1940 e se distinguiram mais efetivamente a partir dos anos 70. Ocorreu, por um lado, a organização da capoeira esportiva (Capoeira Regional) como arte marcial, e, por outro lado, a mobilização de grupos de resistência cultural afro-baiana, que perceberam nos poucos grupos angoleiros a manutenção dos elementos da capoeira trazidos pelos africanos de origem banto.
Bibliografia
Rosângela Costa Araújo. Sou discípulo que aprende, meu mestre me deu lição: tradição e educação entre os angoleiros bahianos (anos 80 e 90). Dissertação (Mestrado). São Paulo: Faculdade de Educação/USP, 1999.
Ilustração: Reprodução - Instituto Itaú Cultural. Enciclopédia de Artes Visuais. http://www.itaucultural.org.br (27/9/2003).
Fonte: www.nzinga.org.br
1. Introdução
Manoel dos Reis Machado (1900-1974), Mestre fundador da capoeira regional. Destacou-se pelos serviços comunitários e sociais que executou, principalmente com crianças e adolescentes. Instituiu o núcleo de documentação, com mais de 5000 títulos sobre capoeira e assuntos relacionados.
Bimba é “O grande rei negro do misterioso rito africano, símbolo de resistência afro-descendente no Brasil.”
2. Herança de Mestre Bimba
“Mestre Bimba – Manoel dos Reis Machado – nasceu em Salvador em 23 de novembro de 1900, no bairro de Engenho Velho de Brotas, em Salvador, Bahia e recebeu o seu apelido devido a uma aposta feita entre a parteira e a sua mãe: a mãe dizia que seria uma menina e a parteira, convicta pelo seu conhecimento, dizia ser macho. Na hora do nascimento, surgiu a expressão: “GANHEI A APOSTA O CABRA TEM BIMBA E CACHO”! O apelido já nasceu com ele. Foi iniciado na capoeira aos doze anos de idade por um africano – Bentinho -, capitão da Cia. Baiana de Navegação, no que é hoje o bairro da Liberdade.
Mestre Bimba
Sodré (1991, apud Campos 2001) refere-se ao Mestre dizendo: “foi uma das ultimas grandes figuras do que se poderia chamar de ciclo heróico dos negros da Bahia”. Segundo Capoeira (2006, p.50) Bimba era um lutador renomado e temido. Ganhou o apelido de “Três Pancadas” porque, segundo se dizia, era o Maximo que seus adversários agüentavam.
Bimba ainda praticante de capoeira começou a ensinar em 1918, sendo seus alunos negros e mulatos das classes populares. Mas apesar da pouca idade (18 anos), possuía alunos também de classes privilegiada, como o Desembargador Décio dos Santos SEABRA, da família do ex-governador SEABRA ; Dr. Joaquim de Araújo Lima , jornalista (Imparcial e Nova Era) e mais tarde governador de Guaporé. Para estes e outros, as aulas eram particulares nos quintais e varandas de suas casas.
Mestre Bimba era um dos capoeiristas mais conceituados de sua época, pois, era muito carismático, excelente lutador e temido por alguns, pois em inúmeros desafios e combates públicos, havia sido derrotado. Mesmo sendo um “cantador” e percussionista admirável, era discriminado por grande parte dos artistas e intelectuais de Salvador (por ter criado a Capoeira Regional), porém era muito venerado por seus alunos.
Aos 29 anos de idade, o próprio Mestre Bimba contava: “Em 1928, eu criei, completa, a Regional, que é o batuque misturado com a Angola, com mais golpes, uma verdadeira luta, boa para o físico e para a mente”. Assim nasceu a Capoeira Regional Baiana.
Na década de 1930, Getúlio Vargas tomou o poder e, procurando apoio popular para a sua política, que incluía a “retórica do corpo”, permitiu a prática (vigiada) da capoeira: somente em recintos fechados e com alvará da polícia. Mestre Bimba aproveitou a brecha e abriu à primeira “academia”, dando inicio a um novo período – o das academias – após o período de escravidão e de marginalidade (Capoeira 2006, p.51) Recebeu do inspetor técnico de Ensino Secundário profissional, o titulo de registro "que lhe requereu o Sr. Manoel dos Reis Machado, diretor do curso de Educação Física, sito à Rua Bananal, quatro.
Bimba ao decorrer dos anos e de sua experiência foi moldando a capoeira de ataque e defesa usada por desordeiros e pessoas de classes mais humildes, numa luta com método de ensino próprio, tornando-a um verdadeiro curso de Educação Física e criando rituais como: Batizado, Formatura e Especialização, seguindo padrões sociais e acadêmicos, pela própria nomenclatura.
Nos anos seguintes, Bimba teve grande sucesso. Em 1949, foi a São Paulo com seus alunos e realizou uma série de lutas com lutadores de outras modalidades. Em 1953, fez uma apresentação para Getúlio Vargas e recebeu o abraço do presidente, que afirmou que “a capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”.
Antes de ir para Goiânia, Bimba formou sua última turma, uma formatura muito comentada chamada 'formatura do adeus', depois deste evento ele deixou a Bahia dizendo 'Não voltarei, mas aqui, nunca fui lembrado pelos poderes públicos; se não gozar nada em Goiânia, vou gozar do cemitério. ' Depois que ele se foi veio a Salvador apenas duas vezes e dizendo que estava tudo bem, mas dona Nair nos disse 'ele foi enganado. Não volta porque é orgulhoso'. Em 05 de fevereiro de 1974 um ano depois que deixou a Bahia, morria o mestre Bimba e foi enterrado em Goiânia. Transladar os restos mortais de Goiânia para Salvador foi difícil, os seus alunos achavam que o lugar dele era Bahia "ídolo não se pertence, pertence ao seu Público”
Bimba obteve grande luta contra as autoridades, porém não uma luta de carne ou sangue, mas de dignidade e respeito à capoeira e aos capoeiristas, sendo assim nos deixou de herança:
A sobrevivência da Capoeira;
A liberdade da Capoeira;
A profissionalização da Capoeira;
A metodologia da Capoeira;
O respeito da sociedade pela a capoeira;
Além disso, Mestre Bimba também conseguiu que ficasse evidente, através de sua própria vida, o desrespeito e o descaso das autoridades pela nossa cultura.
3. Conclusão
Somos gratos ao nosso maior capoeirista, Mestre Bimba, por nos deixar de herança a capoeira como dança, luta, esporte, manifestação folclórica, estilo de vida, etc. Ressaltando que: Bimba jamais, em seus 56 anos de aula, feriu um aluno. Bimba deixava claro que não devia haver luta ao som do berimbau. Seria um desrespeito aos princípios e a Regional tem como um de seus pilares o respeito à integridade física e moral dos companheiros.
Lembrando que: Mestre Bimba desafiou todos os capoeiristas e lutadores baianos da sua época e que ele venceu todas as lutas e só foi desclassificado em uma, por ter dado um galopante em seu oponente e colocado assim o adversário para fora do ringue. Mas o principal de tudo isso que deve ser ressaltado é que nunca o Mestre Bimba lutou ao som do berimbau. Luta era coisa para o ringue, afirmava ele.
O presente estudo teve por objetivo apresentar um pouco da história de Mestre Bimba, que podemos considerá-lo um marco histórico na história da cultura brasileira, um divisor de águas, pois só depois dele foi dado o nome de Capoeira Angola e foi iniciado um movimento geral de resgate e preservação da cultura afro-brasileira em todos os seus âmbitos.
Cabem a nós capoeiristas, amantes da capoeira, mestres e professores divulgar, apresentar e lutar contra os preconceitos ainda existentes, para que possamos garantir as gerações futuras a oportunidade e o direito de ter a história preservada.
Referências
CAPOEIRA, Nestor. Capoeira: pequeno Manual do Jogador. 8ªed.- Rio de Janeiro: Record, 2006.
CAMPOS, Hélio. Capoeira na Universidade: uma trajetória de resistência. - Salvador: SCT, EDUFBA, 2001.
http://br.geocities.com/cccssa2000/sejabemvindo/bimba.html acessado em 08/05/2009, 14:30.
http://www.filhosdebimbasp.com.br, acessado em 08/05/2009, 14:35.
por murillus » 16 Jul 2008, 15:15
Manoel dos Reis Machado, filho de Luís Cândido Machado exímio lutador de Batuque (luta de origem africana muito praticada na Bahia até o começo do século passado) e Maria Martinha do Bonfim, nasceu na Periferia do bairro de Brotas, mais conhecido como Bimba, apelido que ganhou ao nascer entre uma aposta de sua mãe e a parteira sobre o sexo da criança (bimba na Bahia é o órgão sexual masculino), teve seu primeiro contato com a capoeira aos 12 anos de idade (1912), ele iniciou na capoeira na estrada das boiadas, hoje bairro da Liberdade, em Salvador. Seu mestre foi o africano Bentinho, capitão da Companhia de Navegação Baiana.
Bimba começou a ensinar em 1918, quando ainda praticava capoeira (que depois criação da Regional veio se chamar de Angola). Seus alunos eram negros e mulatos das classes populares. Mas apesar da pouca idade (18 anos), possuía alunos também de classes privilegiada, como o Desembargador Décio dos Santos Seabra, da família do ex-governador Seabra; Dr. Joaquim de Araújo Lima, jornalista (Imparcial e Nova Era) e mais tarde governador de Guaporé. Para estes e outros, as aulas eram particulares nos quintais e varandas de suas casas. Monteiro Lobato enviou-lhe uma carta elogiando sua persistência em elevar a capoeira aos níveis atuais, e um livro de sua autoria no qual estava incluso o '22 de Marajó', que contava as façanhas de um marujo capoeirista.
Mestre Bimba um dos capoeiristas mais conceituados em sua época, carismático, lutador temido e jamais vencido em inúmeros desafios e combates públicos, "cantador" e percussionista admirável, discriminado por grande parte dos artistas e intelectuais de Salvador e venerado por seus alunos, realizou uma verdadeira revolução ao criar Capoeira Regional (motivo da discriminação dos artista e intelectuais). Passou a ensinar capoeira – agora chamada luta regional baiana e mais tarde capoeira regional – priorizando as pessoas de nível social mais alto e universitários; isto tiraria a capoeira da marginalidade, e economicamente era muito mais interessante. Abriu sua academia em 1930 (com o alvará saindo em 09/07/1937), sendo a primeira academia de capoeira da história e a quinta termos gerais do Brasil. Recebeu do inspetor técnico de Ensino Secundário profissional, o titulo de registro "que lhe requereu o Sr. Manoel dos Reis Machado, diretor do curso de Educação Física, sito à rua Bananal, 4".
Sobre as inovações introduzidas por Mestre Bimba na capoeira muitos não aceitaram e apenas viram como descaracterização da capoeira que existia. Ele transformou a capoeira, usada para ataque e defesa, praticada por desordeiros e pessoas de classes mais humildes, numa luta com método de ensino próprio tornando-a um verdadeiro curso de Educação Física e criando rituais como: Batizado, Formatura e Especialização, seguindo padrões sociais e acadêmicos, pela própria nomenclatura. Conseguindo assim um grande número de adeptos em todas as classes principalmente entre os universitários, ou seja Mestre Bimba é o responsável pelo interesse de novas classes sociais pela capoeira.
Mestre Bimba também deixou registrado em vinil a sua Regional, gravou um LP chamado Curso de Capoeira Regional, que contém cantigas e os toques de berimbau da Regional, sendo uma referencia para quem quer saber esses, também acompanha um livrete com a biografia do mestre e alguns golpes e movimentos da Regional.
Em 1918 não havia escola de capoeira, havia sim rodas de capoeira, nas esquinas, nos armazéns e no meio do mato.
Em 1928 achando que a capoeira que ele praticava e ensinava era pouco competitiva, e que deixava a desejar em termos de luta, juntou golpes de batuque à capoeira de angola e criou a capoeira regional.
Em 1930 apareceu em sua academia um funcionário do governo que entregou um oficio convidando-o a comparecer ao palácio. Bimba pensou que ia ser preso, pois a capoeira ainda era muito descriminada, mas para sua surpresa o governador/interventor Juraci Magalhães queria apenas que e seus alunos se exibissem para alguns convidados.
Em 1938 faz uma apresentação para o General Aleixo Pinto. Numa oportunidade, o ex-governador Lomato Júnior era seu aluno no CPOR da Bahia, onde deu aulas por tês anos no Forte do Barbalho.
Em 1949 veio a São Paulo, seus alunos realizam uma série de lutas contra lutadores de outras modalidades, vencendo a maioria delas por nocaute. Um jornal da época publicou: "Clarindo derrotou Godofredo no 3° assalto" e continua: "Na luta final da noitada, Clarindo, que vem fazendo alarde de suas qualidades capoeirísticas, derrotou Godofredo (luta livre) no 3° assalto por nocaute, com um "rabo de arraia", que atingiu com precisão a nuca do cotendor que desmaiou". Os resultados das lutas que foram realizadas no Ginásio do Pacaembu foram os seguintes:
Em 23 de julho de 1953, quando fez uma apresentação no palácio, para o então Presidente Getúlio Vargas, ouviu deste o seguinte: "A Capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional". O Mestre Bimba torna-se assim o primeiro capoeirista a ser recebido em um palácio, pelo Presidente, e a exibir-se para os convidados do governo.
Em 1955, apresentou-se com grande sucesso no Teatro José de Alencar, em Fortaleza.
Em 1956, na festa de inauguração da TV Record, em SP, e no mesmo ano na ABI e no Maracanãzinho, no Rio.
Em 1968, apresentou-se com seus alunos para três mil pessoas na Exposição de Pecuária de Teófilo Otôni, em Minas.
Ainda em 1968, no dia 26 de agosto, foi convidado para participar do "I Simpósio Brasileiro de Capoeira", realizado no Rio de Janeiro. Não vai, porém manda o Dr. Angelo Augusto Decânio Filho (um aluno formado), como seu representante. No dia 18 de agosto do mesmo ano, a convite da Faculdade de Filosofia de Vitória - ES, apresenta-se no Ginásio do SESC. No dia 28 do mesmo mês, apresenta-se na Escola de Música na Semana do Folclore, em Salvador, onde foi com seus alunos para participar de debates com folcloristas baianos, provando sua tese de que a Capoeira Regional também era folclore. Em 18 de outubro de 1968 apresenta-se no Cajazeira Country Club, de Salvador, e no dia 23 de dezembro no Clube dos Engenheiros de Mataripe.
Em 7 de setembro de 1969 o Mestre Bimba comemora, no Nordeste de Amaralina, rua Sítio Caruano, onde ele possuía uma academia só para suas festas e apresentações, além dos treinos aos domingos, seus 50 anos de ensino da Capoeira Regional. A festa foi bastante emocionante, comparecendo velhos e novos alunos e o Mestre no final, jogou um pouco de Capoeira com seus alunos mais "chegados".
Ainda em 1969, vai ao II Simpósio Nacional de Capoeira, no Rio, patrocinado pela Comissão de Desportos da Aeronáutica, mais fica só um dia dizendo "aquilo não ia dar em nada". No I Simpósio ele havia enviado o Mestre Decânio.
Em 1971 vai a São Paulo a convite de Airton Moura (Onça), para ser homenageado pelos capoeiristas paulistas e receber o título de Presidente de Honra da Associação K-Poeira.
Ainda em 1971, recebe convite para ir a Goiânia realizar um exame de alunos de Oswaldo Souza. Vai e fica empolgado com o tratamento recebido do povo e das autoridades locais. Mais tarde, ao receber um telegrama convidando-o para uma apresentação em Goiânia, o Mestre vibra. Eis o que dizia o texto:
Apesar da sua simpatia pelo PC(Partido Comunista), Bimba lecionou muito tempo nos meios militares, em 1930 alunos do CPOR entraram em contato e requisitaram seu Curso de Capoeira Regional, queriam que Bimba desse aulas do forte do Barbalho. Ele foi contra sua vontade, devido aos problemas que os capoeiristas e as classes menos favorecidas tinham com a polícia. Após o primeiro momento e sentindo que financeiramente era um bom negócio, ele deu o curso e se tornou um instrutor muito solicitado por elementos das Forças Armadas. O que mais fascinava os militares era o curso de emboscadas.
Casado e pai de 10 filhos, Bimba enfrentava problemas financeiros. Assim, acreditando em promessas de maior reconhecimento e de uma vida melhor, Mestre Bimba deixa Salvador e parte para Goiânia. Antes de ir para Goiânia, Bimba formou sua última turma, uma formatura muito comentada chamada "formatura do adeus" depois deste evento ele deixou a Bahia dizendo "Não voltarei mas, aqui nunca fui lembrado pelos poderes públicos; se não gozar nada em Goiânia, vou gozar do cemitério". Depois que ele se foi veio a Salvador apenas duas vezes e dizendo que estava tudo bem, mas dona Nair nos disse: "Ele foi enganado! Não volta porque é orgulhoso'. Em 05 de fevereiro de 1974 um ano depois que deixou a Bahia, morria o mestre Bimba e foi enterrado em Goiânia. Transladar os restos mortais de Goiânia para Salvador foi difícil, os seus alunos achavam que o lugar dele era Bahia "ídolo não se pertence, pertence ao seu Público".
Bimba se foi mas deixou sua majestosa, inigualável obra, a qual, como ele, tornaram-se imortais, deixando sua filosofia e sua força de fazer uma capoeira forte e insuperável, uma capoeira autêntica, digna de ser chamada Capoeira Regional, a arte marcial brasileira.
Algumas criações de Mestre Bimba:
Vicente Ferreira Pastinha nasceu em Salvador, Bahia, no dia 5 de abril de 1889. Filho de José Señor Pastinha, descendente de espanhol, proprietário de um pequeno armazém, e de Raimunda dos Santos, uma negra nascida em Santo Amaro da Purificação, a qual teve pouco contato.
Pastinha deixou gravado no museu da Imagem e do Som, no ano de 1967, um depoimento onde ele conta, entre outras coisas, como conheceu a capoeira. "Quando eu tinha uns dez anos de idade, eu era franzino, um outro menino, mais taludo que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para rua, ia fazer compras por exemplo e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando sempre. Então eu ia chora escondido de vergonha e tristeza. Contava ainda o tal menino com o apoio da mãe. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu a uma briga da gente. "Vem cá, meu filho", ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando arraia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. Foi isso que o velho me disse e eu fui. Ele arrastava os móveis da sala e deixava um espaço livre onde me ensinava a jogar capoeira, todo dia um pouco e aprendi tudo. Ele costumava dizer: "não provoque, menino, vai botando devagarzinho ele sabedor do que você sabe". Um ano depois, encontrei o menino na rua. Ele me perguntou: "estava viajando ou estava se escondendo com medo de mim?" Eu lhe respondi: "estava com medo". A mãe do menino já se encontrava na porta, sorrindo divertida, esperando o início do espetáculo, quando seu filho venceria novamente a batalha. Mas para surpresa aconteceu ao contrario. Assim que o menino levantou a mão para desferir a pancada, com um só golpe fiz ele sabedor do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito. O velho africano chamava-se Benedito e quando me ensinou o jogo tinha mais idade que eu hoje.
Aos doze anos, Pastinha ingressou na escola de aprendizes da marinha, onde foi músico e instrutor de capoeira, foi jogador de futebol, chegando a treinar na equipe do Ypiranga, seu time do coração, que possui as cores preto e amarelo as quais serviram de uniforme para sua escola de capoeira, foi engraxate, vendeu jornais, praticou esgrima, trabalho na construção do Porto de Salvador, foi alfaiate, fez garimpo e também tomou conta de "casa de jogo", ocupando o cargo de "leão de chácara" (segurança). Tudo isso foi uma forma de se manter financeiramente mas seu desejo era viver de sua arte, pois além de capoeirista era poeta popular, tendo contribuído com seus pensamentos e versos para o entendimento da capoeira como uma filosofia de vida.
Em 1941 a convite do seu ex-aluno Aberrê foi ao bairro da Liberdade, na ladeira do Gengibirra, onde formava-se todos os domingos uma roda de capoeira. Lá se encontravam os maiores mestres da Bahia. Mestre Pastinha aceitou o convite e passou a tarde a "vadiar" e assistir aos outros mestres, inclusive seu ex-aluno Aberrê, que já era famoso no local. No fim da tarde, eles se reuniram e em nome de todos os mestres ali presentes, um dos maiores mestres da Bahia de nome Amorzinho, entregou a Capoeira Angola ao Mestre Pastinha, para que ele tomasse a frente e a colocasse em seu devido lugar. Pastinha ainda tentou se esquivar desculpando-se, porém Antônio de Maré disse: 'não há jeito não, Pastinha, é você quem vai "mestrar" isso aqui'. Diante do acontecimento ele fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, situado no largo do Pelourinho, 19, onde hoje funciona o SENAC e posteriormente na rua Gregório de Matos, 51. Registrando-o em 1952, favorecendo com isso, para o desenvolvimento da Capoeira Angola na Bahia.
Os grandes capoeiristas da época sempre estavam presente nas rodas de Mestre Pastinha, além de turistas e personalidades do mundo como o escritor Jorge Amado, o pintor Caribé, o filósofo Jean-Paul Sartre e o ator Jean-Paul Belmondo.
Em 1964, lança um livro: Capoeira Angola com orelha de seu amigo Jorge Amado.
Em abril de 1966, foi à África, representar o Brasil no I Festival Mundial de Arte Negra, em Dakar (Senegal), recebendo várias homenagens dos participantes e promotores do festival.
Em 1971, quando já estava velho e cego, disseram-lhe que teriam de fazer algumas reformas no conjunto arquitetónico do pelourinho e teria que se mudar para quando a reforma ficasse pronta ele voltar. Pastinha acreditou e saiu, na mudança perdeu móveis, instrumentos, fotos. Alguns discípulos e amigos também o ajudaram como o escritor Jorge Amado, que conseguiu junto ao então prefeito de Salvador, assegurar uma pensão de 3 salários mínimos, uma quantia simbólica que mal garantia seu sustento. No dia da entrega do prédio Pastinha ficou sabendo que a prefeitura tinha doado-o ao Patrimônio Histórico da Fundação Pelourinho, que vendeu ao Senac, Pastinha caiu numa profunda depressão.
Esta expropriação foi um grande golpe sofrido pelo Mestre. Sua mulher, Maria Romélia Costa Oliveira, a D.Nice, foi quem cuidou de Pastinha até o fim ganhando o sustento do casal com um tabuleiro de acarajés.
Em fins de 1979, sofreu um derrame celebral e após um ano de internação em hospital público foi enviado para o Abrigo D. Pedro II. Em 13 de dezembro de 1981, aos 92 anos morre cego, esquecido e na miséria um dos maiores nomes da história da capoeira
Pastinha viveu até aos 92 anos de idade, dos quais 82 dedicados à causa da capoeira.
O capoeirista deve ser calmo, nada de afobação, a tranqüilidade permite que o capoeira se defenda ou ataque com mais sabedoria e malandragem.
O capoeirista deve ser leal, tem que respeitar seus colegas e ter uma obediência quase cega às regras da capoeira.
Ninguém pode mostrar tudo o que tem. As entregas e revelações tem que ser feitas aos poucos. Isso serve na capoeira, na família, na vida. Há segredos que não podem ser revelados a todas as pessoas. Há momentos que não podem ser divididos.
Não se pode esquecer o berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som. Dá vibração e ginga ao corpo da gente. O conjunto de percussão com o berimbau não é arranjo moderno não, é coisa de princípios. Bom capoeirista além de jogar deve saber tocar berimbau e cantar.
"Angola, capoeira mãe. Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método, seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista.
Capoeira é mandinga, é manha, é malícia, é tudo que a boca come...
Pratico a verdadeira capoeira angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos. A lei de angola que herdei de meus avós é a lei da lealdade. A capoeira angola, a que aprendi, não deixei mudar aqui na academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são os meus.
Rafael Alves França, mandingueiro respeitadíssimo no seu percurso por este mundo de meu Deus. Nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA). Com 4 anos de idade iniciou-se na Capoeira pelas mãos de Besouro, seu primo carnal. Além de seu primeiro mestre, Cobrinha Verde também bebeu da sabedoria de Maitá, Licurí, Joité, Dendê, Gasolina, Siri de Mangue, Doze Homens, Espiridião, Juvêncio Grosso, Espinho Remoso, Neco, Canário Pardo e Tonha. Foi 3° Sargento no antigo Quartel do CR em Campo Grande, tendo participado também da Revolução de 32 entre outras pelejas. Durante muitos anos ensinou em seu Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho, com sede no Alto de Santa Cruz, s/ n°, no Nordeste de Amaralina.
Waldemar Rodrigues da Paixão, cantador absoluto, Capoeira desde rapaz, esteve presente nessa Roda, sempre ensinando com seu canto, mostrando como é que faz. Teve como seus Mestres, nada menos do que Siri de Mangue, Tanabí e Canário Pardo. Frequentador assíduo das Festas de Largo, tinha o seu barracão, na Liberdade, onde ensinava e promovia as suas Rodas, muito conhecidas e apreciadas por todos e frequentadas por capoeiras e artistas como o notável Carybé. Ficou conhecido também pela qualidade e beleza dos berimbaus que fabricava. Temido e respeitado, por todos com quem jogava, teve vários admiradores e alunos, dentres eles Zacarias. Muitos e muitos capoeiristas e estudiosos, várias vezes recorrem ao Mestre que sempre atendeu a todos com a simpatia e cortesia de um Capoeira genuíno. Hoje Mestre Waldemar anda por outras Rodas, porém aqueles que passam pela Avenida Peixe, na Liberdade, ainda podem sentir a sua presença e ouvir o seu inconfundível canto, acompanhado com seu "berimbau voizero".
Antônio Conceição Moraes, quem já não ouviu falar do famoso Mestre Caiçara da Bahia? Cantador de primeira qualidade, contador de muitos casos e estórias da Capoeira, tem sempre uma boa reza para oferecer aos seus camaradas e por certo, aos não camaradas também. Figura muito conhecida das Festas de Largo de Salvador, Mestre Caiçara sempre está presente em qualquer festejo popular, portanto em sua camisa as cores vermelho e verde, promovendo sempre a sua Academia Angola São Jorge dos irmãos Unidos do Mestre Caiçara, cujo o nome também é o título de seu primeiro disco fonográfico gravado pela AMC, São Paulo, e encontrado ainda nas lojas de disco. Defensor radical das tradições africanas é sempre bom receber em Nagâ, Ketu, Gêge e Angola, suas bençãos e ouvir sua opinião sobre os grandes Capoeiras do passado e suas considerações sobre a Capoeira de hoje. Todas as tardes ele se encontrava no terreiro de Jesus confabulando, vendendo seu peixe e gingando, mas no dia 28 de agosto de 1997, ele nos deixou com sua arte e magia.
Washington Bruno da Silva, nasceu em Salvador (BA), filho de D. Amália Maria da Conceição. Aprendeu Capoeira com Antônio Raimundo - o legendário Aberrê. Iniciou-se na Capoeira em 1935, na Baixa do Tubo, no Matatu Pequeno. "No banheiro do finado Otaviano" (um banheiro público). Filho de lavadeira, Mestre Canjiquinha foi sapateiro, entregador de marmita, mecanógrafo. Dentre outras atividades foi também jogador de futebol (goleiro) do Ypiranga Esporte Clube, além de cantor de boleros nas noites soteropolitanas. Participou também dos filmes "O Pagador de Promessas", "Operação Tumulto", "Capitães de areia", "Barra Vento", "Senhor dos Navegantes" e "A moça Daquela Hora". Além de fotonovelas com Sílvio César e Leni Lyra. Fundou o Conjunto Folclórico Aberrê, tendo sido Mestre de Antônio Diabo, Paulo dos Anjos, Burro Inchado, Madame Geny, Vitor Careca, Robertão e Brasília, dentre outros nomes da Capoeira atual.
José Ramos do Nascimento, Capoeira de fama na Bahia, marcou época e ganhou notabilidade ímpar na arte das Rasteiras e Cabeçadas. Nodisco fonográfico, produzido pela Editora Xauã, intitulado "Capoeira" - hoje uma das raridades mais preciosas para os estudiosos e adeptos desta Arte - tem presença marcante envolvendo a todos os ouvites. Sobre a beleza e periculosidade do seu jogo, assim se referiu Jorge Amado: "Traíra, um cabloco seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre de capoeira. Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece bailarino e só mesmo Pastinha pode competir com ele na beleza dos movimentos, na agilidade, na rigidez dos golpes. Quando Traíra não se encontrana Escola de Waldemar, está ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade". Mestre Traíra também teve importante participação no filme "Vadiação", de Alexandre Robatto Filho, produzido em 1954, junto aos outros grandes capoeiristas baianos como Curió, Nagé, Bimba, Waldemar, Caiçara, Crispim e outros."
Osvaldo Lisboa dos Santos, conhecido como Mestre Paraná, foi um dos melhores tocadores de berimbau de todos os tempos. Nasceu em Salvador - Bahia - em 1923, sendo o primeiro a tocar berimbau na orquestra sinfônica do teatro municipal do Rio de Janeiro. Participou também no filme "O Pagador de Promessas". Esse angoleiro nato, foi aluno do Mestre Antônio Corró ex-escravo na Bahia, viajou por todo o Brasil, mostrando a capoeira e o som inigualável do seu "gunga", gravando um compacto duplo pela CBS (Capoeira Mestre Paraná), fato este o primeiro que se tem notícia. Convidado por Mercedes Batista, foi a Portugal divulgar a capoeira jogada no Brasil.
Mestre Paraná fundou o Grupo de capoeira São Bento Pequeno nos anos 50, do qual com muito orgulho, constitui toda a formação do grupo Muzenza. No dia 7 de Março de 1972, no IAPASE (Rio de Janeiro), vítima de um súbito colapso cardíaco, morreu cantando o grande angoleiro, deixando uma lacuna em nossa capoeiragem."
João Oliveira dos Santos, Mestre João Grande, nascido na cidade de Itagí (BA), iniciou-se na Capoeira pelos ensinamentos de Vicente Joaquim Ferreira Pastinha (Mestre Pastinha). Já percorreu vários países da Europa, África e América do Norte - com o Grupo Folclórico "Viva Bahia", coordenado pela professora e folclorista Emília Biancardi - divulgando a sua arte e a obra de seu mestre. Foi condecorado, em 1990, com a Medalha do Mérito Desportivo, uma das mais altas condecorações na área do Esporte do Brasil. Mestre João Grande gravou, também em 1990, pelo Programa Nacional de Capoeira, o seu primeiro disco solo. Hoje, estabelecido em Nova lorque, é considerado um dos Mestres mais importantes da Capoeira Angola.
João Pereira dos Santos, nasceu na cidade de Araci (BA). Discípulo de Mestre Pastinha, que o apelidou de "Cobra Mansa", teve seu primeiro contato com a Capoeira por intermédio de Barbosa e Juvêncio. Gravou seu primeiro disco solo pelo Programa Nacional de Capoeira em 1990. Hoje é muito prorurado por alunos do Brasil e do exterior como uma das, referências vivas da Capoeira Angola. É o capoeirista mais velho do Brasil vivo.
Mestre Waldemar. Da Paixão, da Liberdade, da Avenida Peixe, capoeirista conhecido pelos seus berimbaus coloridos e por sua voz inconfundível. Iniciou na capoeira com 20 anos de idade, em 1936, foi aluno de Canário Pardo, Periperi, Talabi, Siri de Mangue e Ricardo de Ilha de Maré. Começou a ensinar capoeira em 1940, na Estrada da Liberdade, no inicio era ao ar livre e depois passou para um barracão de palha que ele mesmo construiu. O local virou ponto de encontro dos capoeiristas baianos, e aos poucos a roda de mestre Waldemar foi se tornando muito famosa e todos os capoeiristas da Bahia iam lá jogar. No livro Bahia: imagens da terra e do povo, publicado em 1964, Odorico Tavares assim descreve uma roda de Waldemar no Domingo a tarde, no Corta Braço, na Estrada das Boiadas, destacando a qualidade do mestre como cantador: "Com os tocadores ao seu lado o mestre levanta a voz, iniciando o canto. Os jogadores, em número de dois, estão de cócoras, à sua frente. É lenta a toada que o mestre canta , como solista e já os capoeiristas acompanham-no em movimentos mais lentos ainda, como cobras que começam a mover-se: olhe o visitante atentamente, como aqueles homens nem ossos tivessem, seus membros parecem que recebem um impulso quase insensível, de dentro para fora.(...) Os homens não se tocam para defesa e ataques que se sucedem em imprevistos de segundos. Ë um milagres em que a violência de um ataque resulte em outro ataque, em que ninguém se toca, ninguém se fere, ninguém se agride. É combate, é baile que dura horas."(p. 177-178)
Mestre Waldemar sempre procurou um bom convívio com todos os capoeiristas recebendo todos em seu barracão com muito respeito e também sendo muito respeitado. O seu reconhecimento com mestre evitava conflitos provocados pelos chamados 'valentões'. Sobre esses conflitos Waldemar nos conta: "Barulho eu nunca tive com ninguém, porque eu sempre fui respeitado, nunca ninguém me desafiou. Se me desafiava para jogar, mestre que aparecia aqui, a minha cabeça resolvia.(...) Me respeitavam muito os meus alunos. E não tinha barulho, porque eu olhava para eles assim, eles vinha pro pé de mim e ninguém brigava."
O canto e o toque de berimbau não eram suas única habilidades o mestre também era um exímio jogador de capoeira. Ele relembra: "Quando eu jogava, eu dizia: toque uma angola dobrada. É um por dentro do outro, passando, armando tesoura, se arriando todo. Parece que eu tô vendo eu jogar. Eu joguei muito.(...) Eu gostava de jogar lento, pra saber o que faço. Pelo meu canto você tira. Eu canto pra qualquer um menino desse jogar, e ele jogo sem defeito. Para os meus alunos eu digo que vou cantar e eles já sabem o que eu quero: são bento pequeno. É o primeiro toque meu. Para o outro tocador eu digo : 'de cima para baixo', e ele sabe que é são bento grande. Para viola eu digo: 'repique', e ele bota a viola pra chorar."
Mestre Waldemar conta que no seu tempo, e nas suas aulas a capoeira era ensinada na roda, mas que também havia os dias de treino. "Eles jogavam e eu fazia sinal pra fazer tesoura, fazia sinal pra chibatear, fazia sinal pro outro abaixar. "
Antonio César de Vargas, nasceu em 5 de abril de 1958, começou capoeira em 1968 com o Mestre Rony (do Grupo Palmares de Capoeira). Depois foi aluno do Mestre Touro, do grupo corda Bamba, na qual teve a honra de ser Cordel Azul. Em 1977 ingressou no grupo senzala para ser aluno do Mestre Peixinho que o formou com a corda vermelha em 1985. É formado em ed. física e pós-graduado em dança. Participou de diversos discos e tem músicas gravadas em vários CD´S, tem um cd gravado, e desenvolve um trabalho com crianças e coordena uma instituição de educação infantil. Mestre Tony é um dos maiores poetas da capoeira - foi homenageado pela Superliga Brasileira de Capoeira como um dos melhores do século em Curitiba - PR pelo Mestre Burguês em 09/09/2000.
Ubirajara Guimarães Almeida, nasceu em Salvador em 1943 iniciou-se na capoeira em 1956 e foi um dos alunos do Mestre Bimba que mais se destacou. Em 1959 começou a ensinar capoeira e em 1961 abriu sua 1º academia denominada Quilombos.
Atualmente ensina capoeira na cidade Berkeley Califórnia - USA. Já gravou vários cd´s e editou três livros.
Raimundo César Alves de Almeida começou a praticar a Capoeira em 1964, no Centro de Cultura Física e Regional, no Terreiro de Jesus, em Salvador, com mestre Bimba. Mestre Itapoan é uma das maiores autoridades no país sobre o mestre Bimba e sua Luta Regional, juntamente com mestre Decânio. Dentista de profissão, seu currículo capoeirístico é vasto, assim como seu trabalho em prol da Capoeira. É reconhecido internacionalmente como grande estudioso das tradições e da vida dos personagens da Capoeira.